4 de julho de 2014

          O Brasil que veio a campo no primeiro tempo de hoje, contra a Colômbia, foi diferente de tudo que se havia visto até então. Intensidade, pressão e controle desde o apito inicial, lembrando muito o time que venceu a Espanha por 3x0 na final da Copa das Confederações, no ano passado. Adotando a mesma proposta de gol marcado logo no início, a seleção de Felipão jogava hoje de forma envolvente e ditava o ritmo da partida, tendo demorado apenas seis minutos para balançar as redes. Thiago Silva - muito criticado ao longo da semana por sua postura na partida contra o Chile - aproveitou uma cobrança de escanteio para mandar para o fundo do gol, com a coxa, uma bola que a defesa colombiana não tirou. Se com o placar zerado o Brasil já tinha total domínio, estar à frente proporcionou ainda mais liberdade para a equipe exercer mobilidade e criar chances.
          A Colômbia - pressionada e enfrentando a marcação avançada brasileira - parecia perdida no gramado, sem conseguir pensar nem jogar. Só não sofreu mais gols porque as muitas chances do Brasil eram interrompidas por erros da própria equipe e até por um pouco de ansiedade dos jogadores anfitriões. Faltava calma, mas o jogo coletivo funcionava muito bem, longe de depender só (ou tanto) de Neymar. Oscar, mais centralizado e em seu espaço de ofício, rendia mais do que quando era deslocado por Felipão para jogar pelos lados. Hulk procurava jogo e aparecia bastante, enquanto Fernandinho despreocupava os zagueiros pela ótima cobertura que fazia no jovem James Rodríguez, sensação e artilheiro do mundial.
          O segundo tempo brasileiro, por outro lado, não teve a mesma fluidez. Com um ritmo bastante diferente do imprimido no primeiro tempo - que foram os melhores 45 minutos do Brasil na Copa -, os donos da casa diminuiram em intensidade e rendimento, permitindo que a Colômbia começasse a ensaiar jogadas e se soltar na partida. O número de faltas foi aumentando, prova de que o controle do jogo e a pressão anteriormente exercida começava a escorrer pelas mãos. Aos 23 minutos, David Luiz ampliou o placar para o Brasil com uma belíssima cobrança de falta, que deixava a equipe mais tranquila por ser um resultado menos arriscado. Dos 3 gols marcados pela seleção na fase eliminatória do mundial, todos foram de zagueiros, sendo dois de David Luiz e um de Thiago Silva.
          Menos de dez minutos depois, aos 32, o goleiro Júlio Cesar fez um pênalti que foi cobrado por James Rodríguez para colocar a Colômbia de volta no jogo e entrar para a sua lista de 6 gols na primeira Copa do Mundo - um recorde. James aparecia mais no segundo tempo, e depois de seu gol a equipe colombiana crescia na partida. Procuraram jogo e criaram chances até o fim dos acréscimos, porém  a melhor campanha da Colômbia em Copas do Mundo, liderada por esse jovem talento, foi interrompida diante do anfitrião.
         A arbitragem hoje - apesar de não ter tido que lidar com nenhum lance tão polêmico - foi péssima; prejudicando não somente um dos times, mas sim o jogo. Foram 53 faltas no total, e no primeiro tempo nenhum cartão foi dado. O árbitro espanhol nada fez para exercer controle sobre a partida, dando abertura a lances mais duros. Thiago Silva, que levou cartão amarelo hoje, está fora do duelo contra a Alemanha na terça-feira (8); o provável substituto é Dante, jogador do Bayern de Munique, que por ter certa experiência com jogadores alemães pode vir a ser uma boa alternativa. Após levar uma joelhada nas costas do zagueiro Zuñiga, Neymar fraturou a vértebra e está fora da Copa do Mundo. Em Belo Horizonte, o Brasil enfrentará os alemães, que ganharam hoje da França, em busca de uma vaga na final. Na outra chave, quem ganhar o confronto entre Holanda e México enfrentará o vencedor de Argentina x Bélgica para denominar o segundo finalista.

2 de julho de 2014

          Chegou ao fim a primeira etapa de mata-mata da Copa do Mundo no Brasil: as oitavas de final. 16 seleções brigaram pela chance de avançar à próxima fase, e metade delas ficaram pelo caminho enquanto o grupo de candidatas para o título fica cada vez mais seleto. Se por um lado a fase de grupos foi um festival de gols - somando 136 em 48 partidas - por outro, balançar as redes na primeira fase eliminatória do mundial está sendo muito menos frequente; foram 18 gols em 8 jogos disputados (excluindo disputas de pênaltis). Não há mais goleadas ou abismos em relação às performances, nem mesmo quando a seleção historicamente superior enfrenta uma de nível inferior. Essa edição do mundial comprova a suspeita de que não há mais bobos no futebol, e quem não alcança a classificação pode no mínimo voltar para casa orgulhoso.
          Todos os líderes de seus grupos se classificaram para as quartas de final, mas muitos deles chegaram perto da eliminação - ou pelo menos sofreram bastante para conseguir sua vaga. Dos 8 duelos, 5 foram para a prorrogação e 2 deles para a disputa de pênaltis. Equilíbrio foi a marca registrada das oitavas de final, que teve 7 de seus 8 jogos terminando o primeiro tempo empatados, sendo 6 deles por 0x0. Confira abaixo um resumo de cada um dos jogos e uma lista atualizada da artilharia e do líder de assistências.

Artilharia: James Rodríguez (COL): 5 gols
Assistências: Cuadrado (COL): 4 assistências

Brasil 1x1 Chile 
A seleção anfitriã da Copa quase foi eliminada ao enfrentar o Chile, "freguês histórico", no Mineirão. Superioridade brasileira somente no apelido provocativo, porque foi muito diferente o que se viu em campo. O Brasil procurava criar pela esquerda, onde estavam Marcelo, Hulk - que participou bastante durante todo o jogo - e Neymar, enquanto o Chile marcava adiantado e tentava se aproveitar das várias vezes em que a saída de bola brasileira falhava. Os donos da casa abriram o placar aos 18 minutos, e já havia um empate aos 32. Depois disso, a rede só balançaria de novo na disputa de pênaltis, após um segundo tempo e prorrogação sem gols. Julio Cesar brilhou ao pegar duas cobranças e contou com a ajuda da trave para empurrar o Brasil para as quartas; 3-2 nos pênaltis. Méritos para o Chile, que fez um pentacampeão mundial sofrer (muito) em suas mãos. A seleção de Felipão tem muito a fazer caso sonhe em passar da consistente Colômbia.

Colômbia 2x0 Uruguai
O Uruguai tinha dois possíveis desfechos após a expulsão de Luis Suárez da Copa: se abastecer das dificuldades e brilhar, ou sofrer o impacto da enorme ausência do craque. Buscaram bolas paradas e contra-ataques durante toda a partida, sem obter sucesso; com Forlán no lugar de Suárez, o Uruguai perdeu muito no quesito velocidade e as bolas lançadas eram inefetivas. A Colômbia, que nada tinha a ver com isso, controlou o jogo e contou com a ajuda de seu artilheiro James Rodríguez para balançar a rede duas vezes. O jovem jogador de apenas 22 anos soma agora 5 gols e 2 assistências em 4 jogos do campeonato mundial; uma verdadeira estreia de gala. Falcao quem?

Holanda 2x1 México
A Holanda teve 53% de posse de bola no primeiro tempo, porém somente duas finalizações. O México, como de costume, tentava pelas laterais. No segundo tempo, Giovani dos Santos abriu o placar logo no começo, e o jogo mudou. Com os dois técnicos fazendo alterações que mudaram significativamente o comportamento de seus times em campo, o jogo era outro; e isso foi confirmado pelo aumento no número de finalizações, que passou para 14 (Holanda) contra 12 (México). O goleiro mexicano Ochoa vinha novamente fazendo a diferença. Porém, a proposta mais defensiva da seleção de Miguel Herrera falhou quando Sneijder foi deixado livre para pegar um rebote na área e encher o pé, empatando para a seleção europeia. Aos 90 minutos, após um penalti "marcável" sobre Robben, Huntelaar decretou a classificação dos holandeses.

Costa Rica 1x1 Grécia
A Costa Rica - primeira colocada do grupo da morte que contava com Uruguai, Itália e Inglaterra - não teve vida fácil contra a Grécia. A proposta de avançar a última linha de defesa para pressionar a saída de bola grega se converteu em um fardo ao invés de um fator positivo, diante dos vários lançamentos, inversões de bola e cruzamentos que a seleção europeia realizava. No início do segundo tempo, a Costa Rica contou com o gol de Brian Ruiz para proporcionar um leve alívio e encaminhar a classificação, que a partir da expulsão de Duarte parecia cada vez mais ameaçada, em grande parte devido à incansável entrega grega. Entrega essa que garantiu, aos 90 minutos, o gol de empate que proporcionaria prorrogação e pênaltis. A única cobrança "perdida" foi a de Gekas, que o goleiro costarriquenho defendeu, garantindo sua seleção nas quartas. A Grécia totalizou 40 cruzamentos durante a partida e 24 finalizações; foram eliminados, mas morreram lutando.

França 2x0 Nigéria
A França pecou um pouco no aspecto defensivo, não realizando marcação avançada e com Matuidi ocupado em tentar fechar o meio e ajudar Evra. De vez em quando, deixava espaços e permitiam a movimentação do quarteto ofensivo nigeriano; no primeiro tempo, a Nigéria finalizou 5 vezes, sendo 4 no gol. Quando Griezmann entrou no lugar de Giroud, aos 62 minutos, os franceses sofreram uma significativa melhora na organização e movimentação, e o atacante Benzema começou a aparecer. Com a saída do lesionado Reuben, o poder defensivo da Nigéria decaiu, e aos 79 minutos Pogba abriu o placar para a França. Com o placar ainda aberto e chances para prorrogação, os nigerianos procuravam o empate, mas na marca dos 90 o zagueiro Yobo fez contra e presenteou os franceses com uma vaga na próxima fase do mundial.

Alemanha 2x1 Argélia
Dentre as últimas 17 Copas, a Alemanha só não esteve nas quartas de final em uma edição (1938). No confronto contra a Argélia válido pelas oitavas de final aqui no Brasil, os alemães tiveram esse histórico seriamente ameaçado, considerando que o time africano não se intimidou com os tricampeões mundiais e veio a campo com a mentalidade que somente a vitória interessava. Com um jogo muito rápido e dinâmico diante de uma defesa alemã lenta - principalmente devido à ausência de Hummels e escalação de Mustafi em seu lugar - a Argélia foi o melhor time em campo e quase conseguiu uma vaga nas quartas diante da poderosa seleção de Joachim Löw. O primeiro gol da partida saiu somente na prorrogação, aos 92 minutos, com Schürrle tirando um pouco do peso das costas da Alemanha. Özil marcou o segundo aos 120, mas a Argélia lutou até o final e conseguiu balançar as redes de Neuer para fechar o placar. Exibição heróica e honrosa dos argelinos, do começo ao final da partida.

Argentina 1x0 Suíça
A seleção da Argentina, que muito prometia antes do mundial, ainda não conseguiu convencer. Passando com certa dificuldade - apesar de três vitórias - em um grupo com Bósnia, Nigéria e Irã, os argentinos ainda estão devendo e seguiram contando mais com o destino do que com juízo ao enfrentar a Suíça. Sem conseguir abrir o placar antes do segundo tempo da prorrogação, ficaram a menos de três minutos de precisar decidir o jogo em cobranças de pênalti. Messi - apagado e tendo somente momentos de lampejo no mundial - deu passe decisivo à Di María, que aos 118 fez o gol que livrou a Argentina de precisar depender da sorte para passar às quartas de final. Sorte essa que apareceu no último lance de jogo, quando um jogador suíço acertou a trave numa cabeçada que poderia ter-lhes colocado de volta no jogo.

Bélgica 2x1 Estados Unidos
A última vaga para as quartas de final foi disputada entre a sensação belga, muito bem tática e técnicamente, e os norteamericanos liderados por Klinsmann. Foram 90 minutos de intensidade, entrega e futebol bonito, sem faltas desleais ou apelos ao juíz; as duas seleções só queriam jogar futebol. Apesar do alto nível e ritmo da partida, nenhum gol foi marcado no tempo normal, mesmo com o enorme número de chances. Foram 38 finalizações da Bélgica e o goleiro americano Tim Howard - homem do jogo - realizou 16 defesas no total, sendo consagrado como herói americano independente da eliminação. A partida foi à prorrogação, e aos 3 minutos Kevin de Bruyne abriu o placar para a Bélgica; Lukaku aumentou aos 105. A raça americana intimidou os belgas, e Julian Green descontou para os Estados Unidos no começo do segundo tempo da prorrogação. Pressão até o final, e uma cobrança de falta ensaiada quase empatou o jogo antes do apito final colocar a Bélgica nas quartas de final. Indiscutivelmente, um dos melhores - senão o melhor - jogos do mundial até aqui.

27 de junho de 2014

Na quinta-feira (26), foram disputados os últimos jogos dos grupos G e H e, consequentemente, da fase de grupos dessa edição da Copa do Mundo. Com um total de 136 gols marcados até aqui - sendo uma média de 2.83 por partida - em 48 jogos disputados, o mundial avança para a fase de mata-mata na qual qualquer erro pode custar o passaporte para o jogo seguinte. 16 seleções garantiram sua vaga nas oitavas de final, sendo 6 delas européias, 2 africanas, 5 sul-americanas e 3 da América do Norte e Central. Entre decepções e surpresas, heróis e vilões, 15 dias já se passaram desde o início da competição, que ainda tem mais 17 dias para seu encerramento. A partir de agora, cada jogo é uma final; cada oportunidade é um passo para o céu ou para o inferno, para a condenação ou a glória. E quem decide são os detalhes. Confira abaixo um resumo de cada um dos oito grupos, uma lista dos artilheiros, "garçons", e o esquema de chaves para o restante do mundial.

Artilharia: Neymar (BRA), Messi (ARG), Müller (ALE):  4 gols
Assistências: Blind (HOL), Cuadrado (COL):  3 assistências

Melhor ataque: Holanda (10 gols marcados)
Pior defesa:  Camarões e Austrália (9 gols sofridos)


Grupo A
O grupo do anfitrião Brasil - que contava também com México, Croácia e Camarões - só foi realmente decidido na última rodada. Com a liderança ameaçada pelos mexicanos que se encontravam em segundo lugar, os brasileiros asseguraram o trono através da goleada por 4-1 pra cima de Camarões, que lhe rendeu o primeiro lugar através do critério de saldo de gols. No confronto direto, Brasil e México só empataram. Venceram seus outros dois jogos e mandaram camaroneses e croatas para casa. 

Grupo B
A eliminação precoce da Espanha após somente dois jogos foi tratada como surpresa e decepção para muita gente que esperava que os atuais campeões do mundo chegassem longe. 5-1 para a Holanda e 2-0 para o Chile foram o suficiente para derrubar a Fúria e classificar essas duas seleções, que tinham como companhia de grupo a modesta Austrália. Apesar de virem mais forte do que muitos apostavam, os australianos também pegaram o rumo de casa cedo, na fase de grupos. 

Grupo C
A Colômbia de Falcao Garcia provou que, mesmo sem o principal craque, é capaz de dar conta do recado. Com três vitórias em três jogos, foi a líder de seu grupo, seguida pela Grécia. O Japão (com duas derrotas e um empate) e a Costa do Marfim (com duas derrotas e uma vitória) são as seleções do grupo C que dão adeus ao Brasil ainda na primeira fase. 

Grupo D
Das quatro seleções presentes nesse grupo (Itália, Inglaterra, Uruguai e Costa Rica), somente uma não contava com o peso da camisa a seu favor, e foi justamente ela quem surpreendeu. A Costa Rica, que não sofreu nenhuma derrota no grupo, mostrou que histórico não ganha jogo e avançou na competição com méritos próprios. Inglaterra e Itália, cada uma com duas derrotas, voltam para a Europa enquanto o Uruguai se classifica em segundo lugar. Luis Suarez, que mordeu o zagueiro Chiellini no confronto contra a Itália, foi punido com 9 jogos de suspensação e será desfalque para a seleção celeste pelo resto da Copa.

Grupo E
A França, que marcou 8 gols em três jogos e sofreu somente dois, é a lider do grupo e forte candidata a ir longe na competição. Quem também avança é a Suíça, em segundo lugar, que apesar de ter marcado 7 gols acabou sofrendo 6, resultando num saldo de apenas um. Equador e Honduras ficam fora e não jogam as oitavas de final.

Grupo F
O grupo da Argentina, apontado por muita gente como o mais fácil de todos, não foi tão fácil assim para os hermanos. Ganhar por 2-1 contra a Bósnia pareceu um placar magro para uma seleção que parecia muito promissora, e só evitaram um empate sem gols com o Irã porque Messi fez 1-0 nos últimos minutos da partida. Vitória por 2-3 com a Nigéria sentenciou a terceira vitória em três jogos e garantiu a Argentina na próxima fase, junto com o adversário. Irã e Bósnia são os eliminados.

Grupo G
A Alemanha, primeira do grupo, é com certeza uma das favoritas ao título. A disputa pela segunda vaga do grupo estava viva até os últimos minutos dos últimos jogos, que aconteceram simultaneamente. A seleção dos Estados Unidos é a que vai para as oitavas de final, apesar de perderem ontem contra a Alemanha e de os portugueses terem conseguido uma vitória contra Gana. O fator decisivo foram os 4 gols a mais no saldo total dos EUA em relação a Portugal. Nossos patrícios voltam para casa, assim como Gana.

Grupo H
A Bélgica, considerada a atual sensação do futebol e grande promessa, conseguiu sua classificação como primeira do grupo somando três vitórias em três jogos. Quem ficou com o segundo lugar foi a Argélia, que empatou com a Rússia em seu último jogo e mesmo assim históricamente avança na competição.

18 de junho de 2014

          Venho comentar o que aconteceu com a Espanha sem fazer uso de oportunismo, sem me aproveitar de uma situação para hipocritamente apontar justificativas como se estivessem debaixo do nariz de todos. Não estavam. Mas é inadmissível que um treinador como Vicente Del Bosque não tenha sido capaz de reconhecer e reagir às forças que empurravam a Espanha ladeira abaixo - e não é de hoje. Defendendo muito mais um estilo de jogo do que a possibilidade de conquistar o bicampeonato, a Fúria se recusou a aceitar mudanças drásticas em relação ao idolatrado grupo e filosofia com que conquistou o título mundial na última Copa, mesmo que ao custo de perder a chance de repetir o feito. Era como se, ao fechar os olhos, pudessem resposicionar os protagonistas e reencenar o sonho de 2010 quatro anos mais tarde. À espera de uma mágica que, no futebol, não existe.
          A derrota teve início na lista de convocados de Del Bosque e foi oficialmente decretada no segundo jogo da fase de grupos. Após sofrer uma goleada por 5x1 na estreia contra a Holanda, ficou clara a urgência com que algo precisava ser feito. Hoje, ao enfrentar o Chile, haviam significativas mudanças: sem Piqué nem Xavi. Porém, muitos dos jogadores capazes de reestruturar a Espanha estavam longe demais nos sofás de suas casas para prestar qualquer auxílio, e a impotência se uniu aos mesmos problemas não resolvidos que já acompanhavam os espanhóis. O Chile marcou duas vezes, escrevendo a história da segunda derrota da Fúria e consequentemente de sua eliminação. Somando zero pontos, 7 gols sofridos e 1 gol marcado (de pênalti), a Espanha deu adeus ao torneio com a pior campanha dessa edição da Copa do Mundo. Numericamente, nem Irã, nem Austrália, nem Costa Rica... Mas sim Espanha, a vigente campeã mundial, foi a pior seleção da Copa no Brasil até então.
          É hora de reformular. Já era hora há muito tempo. Depois da derrota contra o Brasil por 3x0, pela final da Copa das Confederações, praticamente nada foi feito, tanto em questão de elenco quanto de táticas. Com bastante tempo à disposição, a já sintomática decadência do elenco poderia ter sido remediada ao invés de resultar em um sangramento inestancável diante do mundo. Não faltaram avisos para o técnico Del Bosque, que preferiu ignorá-los e insistir em seu sonho platônico. O conformismo e a falta de autocrítica culminaram em algo que, indiscutivelmente, era previsível. Vivendo do legado de Luis Aragonés até alcançar o esgotamento, o atual treinador explorou seu projeto além de quando já não se podia mais, espremendo cada jogador até a última gota de rendimento que podiam dar. O futebol é um jogo de erros, e nessa Copa do Mundo a Espanha cometeu praticamente todos eles, dentro e fora de campo.
          Quando anteriormente questionado sobre o modelo tiki-taka de jogo, o meio-campista Xavi defendeu que ganhariam ou morreriam com ela. Distantes da época em que esse estilo era efetivo e imparável, é hora de desafiar esse radicalismo se a meta for continuar na elite do futebol mundial. Com a possibilidade de o sentimentalismo e o apego cegarem a razão, é necessário considerar que o passado e o argumento sobre as "tantas coisas que isso já nos deu" não devem nunca ser parâmetros para o presente e para o futuro - e isso não seria nenhuma desfeita ou desmerecimento à conquista do título de 2010. Não se pode viver da única estrela que estampa a camisa da seleção espanhola se tiverem como objetivo a conquista de uma segunda.
          Com a eliminação precoce na edição de 2014 da Copa do Mundo, os espanhóis fizeram história. Não a que queriam, mas a que eles mesmo inevitavelmente traçaram. Caíram diante de si mesmos, de uma maneira injusta com a história desse elenco que tanto conquistou nos últimos anos. O técnico Del Bosque, que pecou tanto na convocação como em maus planejamentos, táticas falhas e mudanças estáticas, formou um grupo de agradecimento e de homenagens que se assemelhou à uma despedida de solteiro. Acabou. O jogo e o ciclo. Foram anos de glória, mas que pertencem agora ao passado. E o futuro da Espanha somente a ela pertence.

31 de maio de 2014

A hipócrita Espanha de Del Bosque

          A exatamente 12 dias do começo da Copa do Mundo, o treinador da seleção espanhola Vicente del Bosque fez o anúncio oficial dos 23 atletas que serão levados ao Brasil para representar a Fúria e buscar o segundo mundial consecutivo. A lista de nomes inclui veteranos presentes na conquista do título de 2010 mesclados com sete novidades, a principal delas sendo o atacante brasileiro naturalizado espanhol Diego Costa, que optou por defender o conjunto europeu ao invés de fazer parte de uma seleção brasileira disputando a Copa em casa. O que mais chama a atenção com a divulgação da lista, no entanto, são os critérios - ou a falta deles - utilizados pelo treinador espanhol para selecionar o atual grupo que virá ao Brasil, e a hipocrisia que desmascara preferências pessoais e injustificáveis. Com jogadores "fixos" imunes à noções de meritocracia e avaliação crítica, Del Bosque vem ao Brasil com muito mais um elenco de amigos do que um elenco de mérito.

          Os três goleiros convocados foram Iker Casillas, Pepe Reina e David De Gea. O primeiro, herói da conquista de 2010 e recém campeão da Champions League com o Real Madrid, é uma figura inquestionável na lista de Del Bosque, apesar de não ter sido titular no campeonato espanhol e consequentemente não ter jogado pela maior parte da temporada. A vaga em aberto deixada pela lesão de Victor Valdés, do Barcelona, foi preenchida por Pepe Reina, do Napoli, que há muito tempo não produz o menor esboço de merecer confiança ou espaço, mas que por algum motivo desconhecido agrada o técnico espanhol e lhe garante convocações desde o último mundial. Quem finalmente ganhou um posto foi o jovem David De Gea, do Manchester United, que vem se destacando há um certo tempo na liga mais competitiva da Europa e que até então era invisível aos olhos de Del Bosque. A lamentação fica por conta de Diego López, que apesar de uma fantástica forma desde que foi contratado pelo Real Madrid para suprir a lesão de Casillas, e apesar da sequência dada pela titularidade no campeonado espanhol, não foi sequer chamado para amistosos. Talvez por negligência do técnico, talvez por confronto com seus interesses pessoais; das duas, é difícil apontar a pior.

          O grupo da defesa conta com Piqué (Barcelona), Sergio Ramos (Real Madrid) e Raúl Albiol (Napoli) na zaga, Azpilicueta (Chelsea) e Jordi Alba (Barcelona) na lateral esquerda, Juanfran (Atlético de Madrid) na lateral direita e Javi Martínez (Bayern de Munique) podendo atuar como zagueiro ou volante. Quem ficou de fora foram os dois laterais direitos do atual campeão europeu Real Madrid - Arbeloa e Carvajal. O segundo, que vinha sendo clamado como "melhor lateral da Europa" por muitos, era usado para justificar a preferência em relação ao primeiro. Agora, sob a lógica de Del Bosque, os dois terão a mesma importância e papel: o de assistir à Copa pela televisão de suas casas. Apesar de uma certa consistência de Juanfran e do bom desempenho do Atlético de Madrid ao longo da temporada, é questionável e quase que descartável a suposição de que individualmente esteja acima dos dois outros laterais. E mesmo que estivesse - meritocracia não é nem de longe uma prioridade do técnico espanhol na formação de seu elenco. Tendo justificado a ausência de Arbeloa pela sua volta de lesão, Del Bosque optou por chamar Diego Costa, que ainda não está nem recuperado.

          Os meio campistas escolhidos para a equipe da Fúria podem ser separados em três grupos: jogadores do Barcelona (Busquets, Xavi, Iniesta e Fábregas), demais jogadores que atuam na Espanha (Xabi Alonso do Real Madrid e Koke do Atlético de Madrid) e atletas atuando no futebol inglês (David Silva do Manchester City, Juan Mata do Manchester United e Cazorla do Arsenal). Jogadores de destaque perderam suas vagas para certas peças que são "obrigatoriamente" fixas ou que não obtiveram tanta relevância ultimamente, como é o caso de Xavi - que leva muito tempo sem alcançar sequer a sombra da forma física que o glorificou -, Juan Mata ou Cazorla, que também não vêm justificando suas vagas na Copa pelo recente rendimento. Os que ficam de fora são jogadores como Iturraspe, um dos destaques do Athletic Bilbao que ficou em quarto lugar no campeonato espanhol e que terá vaga na Champions League no ano que vem; Isco, que apesar de não ser um nome indiscutível foi campeão europeu com o Real Madrid e se encontra em um nível muito acima de Juan Mata; e Jesús Navas, do City, mesmo não estando cem por cento fisicamente e sem ritmo de jogo. Mas se isso fosse motivo de corte, o que estaria Diego Costa fazendo na lista?

          Os quatro atacantes convocados são Pedro (Barcelona), David Villa e Diego Costa (Atlético de Madrid) e Fernando Torres (Chelsea). Pedro, apesar do baixíssimo nível do Barcelona nessa temporada, é o melhor dos quatro nomes. Villa vive a pior seca de gols da sua carreira, somando quinze jogos sem marcar. Diego Costa - machucado - está presente, apesar de todas as dúvidas sobre seu estado de forma e da minúscula porção de tempo para recuperação até o início da Copa. Fernando Torres está longe de ser o 9 ideal, conseguindo atingir apenas a marca de 11 gols nessa temporada. Até então, não são encontrados motivos plausíveis que justifiquem a presença da maioria desses atletas na lista definitiva da Espanha. E a não ser que Del Bosque seja realmente um profeta, um gênio incompreendido cujas análises são complexas demais para o entendimento popular - não há lógica, e não há critério. Negredo soma 23 gols na temporada, Llorente 18, Villa 15 e Torres 11. Acredite: os convocados são os dois últimos.

          A Espanha tem possivelmente o melhor elenco de jogadores; a seleção deles, nem tanto. Dentre aproximadamente 50 jogadores com condições de serem convocados, vê-se muitos dos nomes de sempre, de quatro anos atrás, e isso não significa que os ditos atletas mantém o mesmo nível desde então. Pelo contrário, a inflexibilidade e falta de critério de Vicente Del Bosque transformam a fantástica safra espanhola de jogadores em uma elite com jogadores escolhidos através do "amiguismo" ao invés da meritocracia. O treinador optou por chamar quatro jogadores do atual campeão espanhol, três jogadores do atual campeão europeu, e sete jogadores do pior Barcelona da última década. Além do mais, é compreensível que se diga que Del Bosque não sabe fazer times - os encontra feitos, e se aproveita, com pequenas modificações. Agora, os jogadores que passaram a temporada inteira dando o seu melhor por uma vaga passam a entender como funciona o esquema da Fúria. Pode não haver espaço para o esforço, para o merecimento e para a meritocracia - mas há lugar de sobra para injustiças e para a hipocrisia.

25 de maio de 2014

          Era Lisboa, Portugal; porém, devido à invasão espanhola em massa, as ruas da capital portuguesa tinham aparência e clima de Madrid. Pela primeira vez, duas equipes da mesma cidade se enfrentavam em uma final da Liga dos Campeões, e o dérbi entre Real Madrid e Atlético de Madrid não só lotou o Estádio da Luz - que abrigou cerca de 61 mil pessoas - como também trouxe aproximadamente o mesmo número de torcedores sem ingresso para o jogo à cidade. Os poucos quilômetros que separam Portugal e Espanha, assim como a rivalidade histórica entre os dois times, foram fatores que contribuíram para incendiar ainda mais o confronto que aconteceu no dia 24 de maio. Sob diferentes perspectivas históricas - o Real Madrid nove vezes campeão do torneio e voltando a ser finalista após doze anos de jejum, e o Atlético que buscava seu primeiro título para fechar com chave de ouro a incrível temporada -, somente um dos filhos de Madrid seria coroado como rei da Europa.
          Não havia favoritismo unânime. Se por um lado a imponência merengue e a fome por "La Décima" faziam do time um forte candidato, por outro os cholchoneros levavam vantagem nos confrontos diretos ao longo da temporada e apostavam na entrega e união do elenco como principal solução. As duas equipes, entretanto, possuíam dúvidas sobre o estado de forma de seus principais artilheiros - Cristiano Ronaldo e Diego Costa - que corriam contra o tempo contra si mesmos para estarem aptos a jogar. Ambos acabaram estando entre os onze titulares de seus times no início do jogo, declarando força total, na teoria. Arda Turan era uma ausência de peso para o Atlético, enquanto Xabi Alonso e Pepe desfalcavam o Real na mesma proporção. Mas quando se trata de uma final de Liga dos Campeões, o que não falta são candidatos à quaisquer possíveis vagas e um comprometimento generalizado com o objetivo de conquistar a taça.
          Diego Costa, que havia inclusive se submetido a um inusitado tratamento com placenta de égua na Bélgica, não conseguiu permanecer no jogo e precisou ser substituído antes do dez minutos; Cristiano, jogando em seu país, permaneceu em campo durante toda a partida, apesar de visivelmente não estar cem por cento. Os primeiros 20 minutos foram marcados por um certo equilíbrio; com muito a ganhar e mais ainda a perder no caso de qualquer erro, por menor que fosse, cautela era o principal elemento a ser explorado enquanto se observava e estudava o adversário. As duas equipes testavam limites, caçavam fragilidades e aparentavam tentar envolver o rival e esperar pela hora certa de dar o bote; qualquer movimento brusco poderia significar tanto matar quanto morrer. Principalmente pela similar proposta dos dois times de apostar no contra-ataque, era uma questão de ficar amaciando o terreno enquanto esperava o adversário morder a isca.
          Aos 31 minutos, o galês Gareth Bale quase abriu o placar com um chute que caprichosamente beliscou a trave, gerando lamentação para madridistas e alívio para colchoneros. Menos de cinco minutos depois, a barulhenta torcida do Atlético comemorava o gol de Diego Godín, originado em uma jogada de escanteio que contou também com uma saída errada do goleiro e capitão do Real Madrid, Casillas. Considerando que, em finais de Champions League, na maioria das vezes o time que abre o placar é o que sai vencedor, o momento favorecia o Atlético de Madrid, que agora poderia aliviar um pouco da pressão de seu jogo e pensar as jogadas mais claramente. Pelo resto do primeiro tempo, a equipe de Simeone foi superior e levou a vantagem ao intervalo. Os dois times haviam criado pouco, mas o gol no primeiro tempo daria aos colchoneros muito mais tranquilidade após o descanso.
          Com a corda no pescoço, o Real Madrid voltou ao segundo tempo com os mesmos jogadores e a difícil missão de correr atrás do prejuízo. Durante os primeiros minutos, os merengues não conseguiram imprimir essa necessidade de reação em seu jogo, e não se aproximavam de empatar mais do que os colchoneros se aproximavam de ampliar a vantagem. Após 15 minutos, Ancelotti decidiu fazer modificações enquanto ainda havia tempo. Na lateral esquerda, Marcelo entrou no lugar do português Coentrão, dando um caráter mais ofensivo à essa região; Isco entrou no lugar de Khedira, repetindo a reforçando a ofensividade e avanço do time como principal aposta do Real à essa altura da partida. Apesar de ter criado mais volume de jogo, essas alterações não afetaram diretamente a objetividade dos merengues e o Atlético - agora mais recuado - permanecia com as mãos no título.
          Próximo ao final do jogo, o que se via era um Real Madrid frustrado por não conseguir converter suas jogadas em gol e um Atlético cansado fisicamente, mas que permanecia defendendo seu troféu inédito e que fazia o possível para comer o tempo restante e as esperanças madridistas. Tudo parecia decidido na marca dos 90 minutos, apesar dos cinco de acréscimo. Até o mais pessimista dos colchoneros acreditava que o sonho de ganhar a Liga dos Campeões era real. Até o mais otimista dos madridistas via como era pequena a probabilidade de presenciar um milagre. Foi aí que esse milagre tomou forma, ganhou nome e sobrenome: Sergio Ramos. O zagueiro espanhol - que vinha tendo sucesso quando se aventurava no ataque - conseguiu, a dois minutos do apito final, colocar o Real Madrid de volta na disputa pelo título, fazendo possível o impossível.
          Durante a prorrogação, o fator mais notável era a exaustão física, tornada mais evidente ainda pelas diversas vezes em que jogadores iam ao chão devido à cãimbras ou quando não acompanhavam jogadas por falta de fôlego. Os vinte e dois atletas presentes em campo ilustravam uma luta mental, física e tática por um dos títulos mais importantes do futebol mundial. Resistência, controle e concentração. Defender a sua chance de título era tão importante quanto tentar golpear o adversário em seu momento mais vulnerável, superando sua própria fragilidade. Aos 110 minutos, foi o milionário investimento merengue - Gareth Bale - quem forneceu o gás para incendiar o confronto, virando o placar por 2-1 para os blancos. Levando os colchoneros à beira do nocaute, a equipe de Ancelotti precisava somente segurar o resultado e, com sorte, dar um golpe final para declarar a batalha vencida. E essa punhalada definitiva veio com Marcelo, aos 118, e Cristiano Ronaldo, aos 120, que marcou de pênalti em seu país natal. O Real Madrid era o campeão da Champions League.
          Depois de 12 anos, o clube merengue voltou a ocupar a máxima elite do futebol europeu. "La Décima", o décimo título da Liga dos Campeões, deixou de ser uma obsessão e tornou-se uma realidade. Depois de muitos "quase", o sabor amargo de frustrações anteriores - como a derrota nos pênaltis contra o Bayern e a goleada sofrida contra o Borussia Dortmund, ambas em semi-finais - passa a ficar em páginas anteriores que serão esquecidas, ofuscadas pelos momentos de glória que fazem do Real Madrid historicamente o maior clube da Europa. Com uma vitória sofrida, enfrentando um rival forte e lutando contra cobranças e pressões internas, o campeão viveu uma noite intensa porém mágica - como uma final de Champions League deve ser.

30 de abril de 2014

          Os candidatos a finalistas que jogaram na quarta-feira (30), já sabiam que teriam pela frente o poderoso Real Madrid como adversário em Lisboa, para decidir o título. Enfrentaria José Mourinho o seu ex-clube, ou seria o Atlético de Madrid que avançaria para disputar um dérbi madrilenho valendo o título da Champions League? O palco para essa decisão foi o Stamford Bridge, na Inglaterra, casa do Chelsea e amuleto de sorte dos anfitriões. Após um empate por 0-0 no jogo de ida, o confronto estava completamente aberto para quem soubesse administrar melhor uma oportunidade com 90 valiosos minutos.
          Os blues contavam com a volta do belga Hazard - jogador que mais criou chances de gol nas ligas européias dessa temporada - para trazer um potencial mais ofensivo ao time. Apesar de manter o foco em defender, o Chelsea poderia se permitir ousar um pouco mais estando em casa, e foi exatamente isso que aconteceu. No primeiro tempo, o jogo estava equilibrado dentro das propostas das duas equipes, porém os ingleses procuravam atacar muito mais do que fizeram em Madrid. Pelo Atlético, Diego Costa - isolado na frente - se movimentava bem e buscava surgir como opção de passe. Era claro que os colchoneros focavam suas esperanças em fazer a bola chegar nele, para que o brasileiro decidisse.
          Aos 35 minutos, em uma bela jogada do brasileiro Willian - que resultou em cruzamento de Azpilicueta -, o atacante Fernando Torres abriu o placar para os ingleses, contra seu time do coração, e inclusive não comemorou em respeito à torcida. Menos de dez minutos depois, aos 44, a defesa desarrumada do Chelsea deu a oportunidade para Adrián López deixar tudo igual no placar e colocar a vaga na mão dos espanhóis. Devido ao empate por 0-0 no jogo de ida e à regra do gol fora de casa, qualquer empate favorecia o Atlético.
          No segundo tempo, os defensores do time inglês permaneciam desatentos, e com poucos minutos de jogo quase permitiram que uma chance dos adversários se transformasse em gol; por sorte, o goleiro Schwarzer fez boa defesa. Com apenas 8 minutos, Mourinho decidiu fazer não só uma substituição, mas também uma mudança tática em seu time: o atacante Eto'o entrou no lugar do Ashley Cole, e Azpilicueta retornou à sua costumeira posição de lateral esquerdo. Cerca de cinco minutos depois de sua entrada, Eto'o fez um pênalti bobo e desnecessário em Diego Costa, que marcou seu oitavo gol em oito jogos pela Champions League e deixou a equipe de Madrid à frente no placar: 1-2.
          A melhor postura e administração de bola do Atlético no segundo tempo deu superioridade ao time, que criava boas chances. O Chelsea precisava agora de dois gols para avançar, e conforme o tempo passava, a chance de participar da final se via cada vez mais distante. Hazard não se achava em campo, e os blues não conseguiam esboçar uma reação diante da situação em que se encontravam. As coisas ficaram ainda piores para os mandantes quando Arda Turan, aos 26 minutos, marcou o terceiro gol colchonero, que praticamente resolvia o confronto. Invicto, o Atlético de Madrid de Simeone chegava a uma decisão de Champions League após 40 anos de espera. Morrendo na praia, o Chelsea sofreu sua quarta derrota em casa, em um total de 117 jogos sob o comando de Mourinho.
          Os dois últimos campeões europeus - Bayern e Chelsea - ficaram pelo caminho e não participarão da grande final que, pela primeira vez na história, terá como protagonistas dois times da mesma cidade. Real Madrid e Atlético de Madrid se enfrentarão no dia 24 de maio, em campo neutro, e somente um deles voltará para a Espanha consagrado. Será a vez do tão aguardado décimo titulo madridista, ou da primeira conquista colchonera? Somente sob à luz de Lisboa, saberemos.